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Unicamp | Respostas rápidas à pandemia salvaram vidas no HC da Unicamp

Dedicação profissional diante da maior pandemia dos últimos 100 anos e um aprendizado diário intenso de uma doença desconhecida transformaram o Hospital de Clínicas da Unicamp em uma das principais referências estaduais no combate ao coronavírus. A instituição, mantida pelo orçamento da universidade e por verbas oriundas do SUS, atende uma região que engloba 6 milhões de pessoas. A maioria delas mora fora da cidade de Campinas.

Autor Eduardo Geraque | Especial para o Portal da Unicamp

Fotos Antoninho Perri | Caius Lucilius (Assessoria de Imprensa HC)

Edição de imagem Renan Garcia

Fonte Portal Unicamp


“Um dos legados que essa pandemia vai deixar é sobre o funcionamento do SUS. A base do sistema conseguiu responder muito bem ao desafio e manteve o tratamento que elevou a sobrevida dos pacientes”, afirma Plínio Trabasso, infectologista e coordenador de assistência hospitalar do HC.

O infectologista Plínio Trabasso: HC passou a ser considerado um hospital chave para casos complexos no interior de São Paulo - Foto: divulgação


“É muito importante isso. Nós aqui tratamos 100% dos internados pelo SUS”, comenta o médico. Desde o início da pandemia, por causa da infraestrutura e do plano de enfrentamento montado na Unicamp desde janeiro, o HC passou a ser considerado um hospital chave para o atendimento de casos complexos no interior segundo a própria Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. O hospital está sendo uma peça essencial no combate ao coronavírus na região de Campinas e cidades vizinhas.


“Podemos classificar o nosso resultado, em termos de letalidade, como muito bom. Na comparação com outros hospitais tanto no Brasil quanto no exterior, e de acordo com a literatura da área, o nosso índice médio de 18% de óbitos entre os pacientes efetivamente internados em estado grave é muito razoável”, analisa Trabasso.

Além do desafio de transformar a rotina do HC em poucos dias no início do ano, e preparar todas as equipes para o atendimento aos doentes, as coordenadorias do HC também se organizaram para manter uma parte do hospital voltada para os casos que não tinham relação com a Covid-19. “As ocorrências envolvendo traumas, principalmente de idosos e crianças, que passaram a permanecer mais tempo em casa, aumentaram bastante. Nós também continuamos atendendo essa demanda. Assim como os infartos, que também cresceram”, diz um dos coordenadores do Hospital de Clínicas da Unicamp.


Nas alas totalmente destinadas às consequências da crise de saúde pública provocada pela pandemia, em um primeiro momento, houve muito treinamento por meio de vídeos e uma corrida por equipamentos de proteção individual. Grandes demandas que mudaram a rotina do hospital e precisaram ser administradas segundo a segundo. Como o mundo todo estava atrás de EPIs, caso de luvas, máscaras e aventais, os preços subiram e o prazo de entrega ficou cada vez mais longo. Tanto a administração do HC quanto a Reitoria e a força-tarefa multidisciplinar montada pela Unicamp tiveram um papel decisivo para que a vida dos profissionais de saúde fossem preservadas. Não houve falta de EPIs.


Em um segundo estágio do combate ao coronavírus, a linha de frente que atuava no hospital começou a entender na prática o desenvolvimento da doença, conforme os casos foram se avolumando. O HC chegou a internar 12 pacientes graves em um mesmo dia durante junho, no ápice da curva pandêmica. “Um dos procedimentos que mudamos em relação ao início foi o da ventilação mecânica. Começamos a entender a doença e a perceber que equipamentos de ventilação não invasiva, onde o paciente não precisa ser entubado, também davam boas respostas em muitas condições. Assim como a pronação [o ato de virar o paciente de bruços para ajudar na oxigenação dos pulmões passou a ser aplicado, também, em doentes conscientes e não apenas em quem estava entubado]. Os dois procedimentos nos ajudaram, sem dúvida nenhuma, a salvar vidas”, diz Trabasso. “Mas, claro, ainda não conhecemos tudo sobre a Covid-19.”

Em um primeiro momento, houve muito treinamento por meio de vídeos e uma corrida por equipamentos de proteção individual - Foto: divulgação


Testes pioneiros


Outra estratégia totalmente acertada, na avaliação de Trabasso, que também ajudou muito no combate à Covid-19 no HC, foi o fato de a Unicamp ter sido a primeira instituição em São Paulo credenciada para fazer testes diagnósticos de RT-PCR além do Instituto Adolfo Lutz. “Os testes desenvolvidos todos de forma independente pelo pessoal da força-tarefa foram decisivos em muitos casos. Antes deles, como o Adolfo Lutz estava sobrecarregado, os diagnósticos demoravam duas semanas. Com eles, na maioria das vezes, tínhamos os resultados em 24 horas.”

O médico infectologista também credita muitos dos resultados obtidos nas salas do HC ao engajamento da equipe.


“Fizemos treinamentos escalonados, onde as equipes dos ambulatórios passaram a ajudar nas enfermarias e os profissionais que atendiam na enfermagem começaram a colaborar nas UTIs. Muitos da equipe médica se voluntariaram a desempenhar novas funções. Mesmo pessoas do grupo de risco ajudaram em locais onde não havia contato direto com os infectados.” Pelo fato de o HC ser uma referência no Estado, mais recursos foram destinados pelo governo estadual ao hospital e equipes temporárias foram contratadas. São 63 leitos de UTI exclusivos para Covid. Recursos federais também estão sendo importantes no enfrentamento da pandemia pelo HC.


Outra parte do aprendizado acumulada nos mais de cinco meses de enfrentamento da pandemia serviu para ajudar os próprios profissionais. O cuidado com a desparamentarização ao se deixar os locais infectados, por exemplo, passou a ser cada vez maior. “Percebemos que o grande risco ocorre exatamente nesse momento”, diz o coordenador do HC.

Assim como o cuidado redobrado que deve ser tomado mesmo entre os médicos e enfermeiros que não estão diretamente nas alas destinadas ao tratamento da Covid. “Em junho tivemos uma semana bem ruim, onde mais de 20 profissionais se contaminaram em locais que não estavam relacionados com o coronavírus. Não sabemos nem onde ocorreu a contaminação, pode ter sido na rua, mas os casos foram registrados. Depois disso, passamos a testar todo mundo, até o pessoal da limpeza, e afastar os casos assintomáticos positivos.”

Grafite estampado no corredor do HC feito pelo artista Gustavo Nenão para homenagear os profissionais de saúde : desafio de transformar a rotina do HC em poucos dias no início do ano - Foto: divulgação

Desaceleração e cautela


Se em junho os casos de internação chegaram a ultrapassar a marca de dez por dia e agora estão entre um e dois no caso do HC da Unicamp isso não significa que a situação já pode ser considerada totalmente sob controle, avalia Trabasso. Segundo ele, a flexibilização das cidades da região, que acabou de ocorrer, pode aumentar a quantidade de doentes. “Por causa do ciclo da doença, entre a flexibilização e o impacto no hospital precisamos esperar mais de duas semanas. Não estou falando que a reabertura está errada, pelo contrário, ela está de acordo com o Plano São Paulo, que também previu o isolamento, ação fundamental para evitar muitas pessoas doentes ao mesmo tempo. Mas é esperado um pequeno aumento no número de casos nas próximas semanas por causa dessa maior circulação de pessoas”, diz.


Em compensação, segundo Trabasso, para quem um controle maior da pandemia pode ocorrer entre outubro e novembro, a chegada da primavera e do típico calor campineiro pode ser um fator positivo em relação à circulação do vírus. Com temperaturas mais altas, a aglomeração das pessoas, como ocorre no frio, tende a diminuir.

“Solução mesmo é a vacina. Mas é fato que a vida de todo mundo mudou. Ela não será mais igual ao que era até dezembro de 2019. Infelizmente perdemos colegas e pacientes. Mas todos nós estamos fazendo parte de algo histórico e precisamos dar o nosso máximo”, afirma o infectologista da Unicamp.