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Pesquisa segue os passos da viola caipira no Brasil | UFG

Do cancioneiro popular à viola caipira de concerto, a representação espacial da música de raiz foi tema do estudo

Por Carolina Melo

Fonte Secom-UFG

Foto de capa Rodolfo Pimentel Oliveira

Foto de arquivo pessoal do pesquisador (divulgação)

O som da viola caipira tem o dom de comover até mesmo aquele ouvinte mais desavisado, especialmente se ele vive entre o sertão de Guimarães Rosa e as veredas de Carmo Bernardes. A sua toada evoca um sentimento peculiar, que parece emergir de outros tempos, de uma memória ancestral especialmente localizada. Foi a vivência do universo caipira na infância e seu reencontro musical com os violeiros neocaipiras nos corredores da Universidade, que gerou o interesse do músico e pesquisador Denis Rilk Malaquias em entender as territorialidades e representações espaciais que a música caipira evidencia. O pesquisador traçou o histórico, o espaço manifesto e a ressignificação do caipira e do violeiro ao longo do tempo. E, no relato científico sobre a música de raiz, deparou-se com a própria história.


“Eu não só pesquisei sobre a música caipira, mas, de certa forma, estive ali narrando um pouco da minha trajetória. Apesar de ter minha formação musical ao violão, com tradição europeia e da música erudita, as sonoridades mais remotas que tenho em minhas lembranças de infância são literalmente campesinas”. Denis viveu até a sua pré-adolescência na zona rural. Seu pai era um pequeno agropecuarista no município de Palmeira de Goiás. “Recordo-me que, quando ele saía para ordenhar o gado, colocava o rádio numa faixa que tocava música caipira em cima de um mourão no curral. O meu despertar do dia era sempre o cantar do galo no terreiro, os pássaros, o mugido do gado e outros bichos, as correntezas dos córregos ressoando entre a ciliar ao fundo do quintal”.


A música caipira presente na infância de Denis era uma audição contextualizada na paisagem rural. Com a mudança para a cidade e o ingresso na Universidade, o resgate dessa vivência chegou pelas mãos de um colega de curso na Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC) da UFG, o violeiro Almir Pessoa, que dedilhava a viola e entoava os cancioneiros nos corredores da faculdade. “Isso me fez reacender o interesse de entender mais essa música, essa cultura, de onde ela veio e a sua abrangência”.


A perspectiva socioespacial da música começou a chamar a atenção enquanto abordagem de pesquisa no mestrado, mas foi no doutorado, na pós-graduação em Geografia Cultural no Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da UFG, que o contexto que circunda o fazer musical e que o influencia, constrói e o ressignifica se tornou, de fato, o objeto de estudo do pesquisador. Denis Malaquias, então, identificou os processos de constituição do território caipira por meio da trajetória da viola desde a sua chegada ao Brasil. O estudo orientado pelo professor do Iesa, Alex Ratts, focou, portanto, no caminho traçado pelos violeiros tradicionais até a sua nova abordagem com os chamados violeiros concertistas ou neocaipiras. E, ao longo da trajetória histórica da viola, resgatada pelo estudo, o “ser caipira" e os aspectos que circundam sua territorialidade estavam presentes em todas as expressões musicais.


Denis Malaquias se deparou com própria história (Foto: arquivo pessoal)

Seja o violeiro com o instrumento debaixo do braço nos interiores do sertão, ou aquele que mistura a guitarra ao canto da música sertaneja, até o que faz imbricações com a música erudita, trazem consigo a sonoridade de uma mesma origem.


“Notadamente, todos esses subcampos de produção originados da música caipira se evidenciam na mesma área geográfica, se justapõem no que alguns autores chamam de região centro-sudeste do país. A maioria dos violeiros são advindos dessa região”, afirma Denis.


Apesar da mesma origem, destaca o pesquisador, a música caipira não está alheia às influências e transformações e aos processos temporais. “Sempre haverá mudanças e incrementações nessa música”.

Música caipira de concerto


Uma das conclusões a que chegou o pesquisador é a de que não se pode defender que existe uma música caipira totalmente pura, sem nenhuma influência externa. “Claro, não podemos concluir como era antes de 1929, até porque não se tinha outras formas de registros dessa música antes dessas primeiras gravações. Tudo na cultura caipira era repassado através da tradição oral. Mas já na primeira metade do século passado podemos evidenciar a presença de ritmos estrangeiros sendo incorporados na música caipira”, afirma.

Com o foco nos violeiros contemporâneos, Denis Malaquias percebeu a sonoridade caipira sendo experienciada com o “requinte e as peculiaridades interpretativas de obras eruditas”. O som da viola de 10 cordas começou, assim, a ocupar o espaço das salas de concerto na cidade. Aos músicos da viola caipira solista instrumental coube a identificação de neocaipiras ou neovioleiros, que começam a ganhar evidência a partir das décadas de 1980 e 1990.


De acordo com a pesquisa, os violeiros neocaipiras são, então, os músicos de classe média, com variadas formações acadêmicas e musicais, que estudaram a viola com mestres, geralmente em viagens pelo “antigo” território caipira, do qual nem sempre são provenientes. “Tocam composições próprias, mas retomam o cancioneiro caipira e, por vezes, contam causos, como se fazia e se faz em rodas de festas, em programas de rádio, televisão ou internet e que fazem apresentações em salas de concertos nacionais e internacionais, podendo também gravar ou se apresentar em performances violeirísticas nas formações solo instrumental ou acompanhando duplas 'tradicionais'''.


Nessa nova roupagem, o toque da viola começou a ser disseminado também pelas mais variadas formas da atualidade, inclusive por meio do espaço virtual com a internet e também pelos meios de comunicação. “Mas mesmo se tratando de visualizações em plataformas de streaming essa música possui mais evidência na região centro-sul”, afirma o pesquisador.

O estudo acompanhou quatro desses neocaipiras: Roberto Corrêa, Ivan Vilela, Fernando Deghi e Paulo Freire. “Pelo fato de todos violeiros escolhidos pelo estudo terem estudado música erudita de tradição europeia e ao mesmo tempo também terem vivências no âmbito caipira, eu tomei a liberdade de intitular a ‘música caipira de concerto’". Segundo Denis, não existe nenhum gênero musical com essa taxonomia. “Mas não deixa de intrigar leitores com o título”.


Entre os resultados que chamaram a atenção do pesquisador está o trânsito livre dessa música híbrida caipira/erudita. “Se outrora o caipira sofreu preconceito nos ambientes urbanos, e os sertanejos foram hostilizados e acusados de estarem maculando a música caipira, os neocaipiras se apresentam nos ambientes mais distintos possíveis e são bem recebidos”. De acordo com Denis, os violeiros acompanhados pelo estudo, por exemplo, apresentam-se tanto em renomadas salas de concerto mundo afora, quanto em folias, congadas e outros ambientes populares e sempre com grande receptividade.


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