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Pesquisa da Unesp que ajuda no combate à fome ganha destaque

Estudo sobre biofortificação com selênio do feijão-de-corda recebe Prêmio Péter Murányi


Por Fabio Mazzitelli, da ACI Unesp

Fonte Portal Unesp





Durante o ano de 2020, em meio à pandemia de Covid-19, um alerta feito pela Rede de Informações sobre Segurança Alimentar, que conta com o apoio da agência das Organizações das Nações Unidas que trabalha no combate à fome (FAO-ONU), estimou que cerca de 149 milhões de pessoas estavam em situação de crise de fome, considerando dados de 79 países.

O docente André Rodrigues dos Reis (à esq.) e o doutorando Vinicius Martins Silva desenvolvem o estudo no câmpus de Tupã da Unesp: pesquisa enfocou o feijão-caupi, muito usado na culinária nordestina. Imagem: Reprodução / YouTube

No Brasil, levantamento divulgado em setembro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou piora no índice de segurança alimentar das famílias brasileiras e estimou cerca de 10 milhões de habitantes sem acesso regular à alimentação básica, sendo aproximadamente 40% deles vivendo na Região Nordeste do país.


Uma pesquisa desenvolvida pelo professor André Rodrigues dos Reis e pelo hoje doutorando Vinicius Martins Silva, ambos da Faculdade de Ciências e Engenharia (FCE) do câmpus de Tupã da Unesp, tem como objetivo mitigar a desnutrição humana, a chamada “fome oculta”, no Brasil por meio do manejo adequado de selênio para biofortificação agronômica do feijão-caupi, também conhecido como feijão-de-corda, muito utilizado na culinária do Nordeste do país, em saladas, farofas e pratos como o baião-de-dois.


O estudo, que contou com bolsas da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e teve a parceria da Universidade de Nottingham (Inglaterra), foi um dos finalistas do “Prêmio Péter Murányi 2020”, um dos principais do ambiente científico no país. O trabalho da Unesp ficou em terceiro lugar, entre pesquisas de 73 instituições participantes, e conquistou uma premiação de R$ 20 mil. Não houve cerimônia presencial para a entrega do prêmio, mas os projetos vencedores foram apresentados durante a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em outubro passado.


“Como o Nordeste concentra problemas de desnutrição no Brasil, resolvemos estudar o feijão-caupi porque é uma das principais fontes de proteína nesses locais”, explica o docente André Rodrigues dos Reis, que orientou o trabalho de mestrado que deu base para a pesquisa premiada. “Visamos mitigar a desnutrição humana no Brasil. Daí desenvolvemos um manejo adequado de aplicação do selênio para aumentar a assimilação do nutriente pela planta e a planta assim fornecer um grão com a melhor qualidade bioquímica para quem for consumir, visando a alimentação humana”, explica o professor da Unesp em Tupã.

“Em relação à experiência que ficou do meu mestrado, posso dizer que a gente precisa se esforçar bastante para que as conquistas venham. Fiz muitos experimentos durante o mestrado, experimentos de campo que davam trabalho para serem conduzidos, e, ao mesmo tempo, fui seguindo as instruções do meu orientador, confiando no André.


Com essa combinação de trabalho duro e de confiança naquilo que o meu orientador falava, descobrimos algumas coisas muito interessantes, conseguimos publicar o nosso trabalho em bons periódicos e tivemos a alegria de sermos reconhecidos pela Fundação Péter Murányi. Para mim, é um exemplo de que a gente tem que estar sempre se esforçando e acreditando no que a gente faz”, afirma o pesquisador Vinicius Martins Silva, que segue estudando o tema no doutorado, também sob orientação do professor André Reis.


Micronutrientes

O grupo de pesquisa liderado pelo docente da Unesp é especializado em biofortificação agronômica, mais especificamente em micronutrientes, tais como ferro, cálcio, zinco e selênio. Como os solos tropicais são altamente intemperizados, de fertilidade baixa ou muito baixa, é necessário em geral que seja feito um trabalho de correção do solo para que as plantas possam atingir um bom nível de desenvolvimento. “A ideia geral do projeto é a de nutrir a planta para nutrir o ser humano”, resume o professor André Reis.


A pesquisa com selênio envolveu um elemento considerado essencial para os humanos devido ao seu potencial antioxidante e à sua capacidade de reforçar o sistema imunológico. Para as plantas, entretanto, o selênio não é considerado um elemento “essencial” propriamente dito, mas sim “benéfico”. O que isso significa? Que a planta consegue viver sem o selênio. “Só que, quando eu aplico o selênio na planta, aumenta o sistema antioxidante da planta e ela fica muito mais tolerante à seca e a uma série de outros fatores ambientais”, pontua o docente.


Mas havia um problema a ser resolvido para o manejo adequado de selênio no feijão-caupi: a grande concentração de um composto chamado fitato (ácido fítico), um antinutriente comumente encontrado em sementes e grãos que dificulta a assimilação de nutrientes pelo organismo. Dessa forma, para fazer com que o selênio enriquecesse o feijão-caupi e o tornasse mais nutritivo, era preciso neutralizar de alguma forma a grande concentração de fitato sem exagerar na quantidade de selênio, que se torna tóxico em altas doses.

“Foi desenvolvida uma metodologia para aplicarmos selênio em baixas concentrações para não apresentar nenhum tipo de toxidez por excesso de ingestão de selênio quando o humano fosse consumir esse feijão-caupi”, afirma o professor André Reis. “Um achado muito importante que encontramos foi que o selênio diminui o fitato. Veja que interessante: ao mesmo tempo em que a gente aumenta a concentração do selênio no alimento comestível, o selênio bloqueia a síntese de fitato quando o grão está jovem. Então é possível estabelecer agora momentos de colheita para oferecer um produto com uma melhor qualidade nutricional e uma menor quantidade de fitato. Para o consumo humano, isso é ótimo”, diz.


A pesquisa contou com o apoio do professor Martin Broadley, da Universidade de Nottingham, com quem o professor André Reis já mantinha parceria. Foi lá que o pós-graduando Vinicius Martins Silva realizou, no primeiro semestre de 2018, análises nutricionais e de qualidade de grãos por meio do equipamento ICP-MS, que faz espectrometria de massa por plasma acoplado. O intercâmbio no exterior foi viabilizado por meio de uma Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), da Fapesp. “Desenvolvemos todos os experimentos aqui, mas, para analisar o selênio, tinha que ter esse equipamento”, explica o professor André Reis. “Esta parceria entre a Unesp e a Universidade de Nottingham permitiu ao Vinicius completar, com muito sucesso, os experimentos dele”, diz o docente.


Na reunião do Conselho Universitário da Unesp realizada em 22 de outubro, os autores do estudo foram parabenizados pelo reitor da Universidade, o professor Sandro Roberto Valentini, pela conquista na 19ª edição do “Prêmio Péter Murányi", cujo tema foi Alimentação.

Veja abaixo o vídeo gravado pelos pesquisadores em razão da premiação.


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