• Sintonia

O vírus e a transformação na rotina de pesquisadores da UFG

Mestrandos e doutorandos avaliam desafios e oportunidades do ensino remoto (ERE) na pandemia

Por Talita Prudente

Fonte PRPG UFG

Imagens Divulgação

A jornada dos estudantes de pós-graduação já era repleta de expectativas e contratempos, mas nada como o baque de uma pandemia mundial que já causou a morte de quase 7 milhões de pessoas em todo o mundo. Há mais de um ano, mestrandos e doutorandos vêm se adaptando a encontros remotos e métodos científicos que respeitem o isolamento social. Ansiosos com o futuro incerto, pesquisadores da UFG relataram as angústias e também as experiências positivas vividas nos PPGs durante os últimos semestres.

Concentrar-se em um projeto de pesquisa no atual contexto é algo complexo e provoca dilemas particulares em cada estudante. “Para além das diferenças entre os perfis das pesquisas (teóricas ou experimentais), precisamos considerar a questão da saúde mental e outras dificuldades individuais, como de acesso aos meios digitais, financeira, organização familiar. No meio disso tudo ainda precisamos tentar ser produtivos”, conta Dener Araújo, presidente da Associação de Pós-Graduandos da UFG (APG) e doutorando em Medicina Tropical e Saúde Pública.

O fato é que o cenário ideal para o Ensino Remoto Emergencial (ERE), com um ambiente livre de interrupções e boa conexão de internet, não é a realidade de todos os estudantes. Muitos pesquisadores aliam o doutorado ao cuidado com filhos, casa, trabalho e outras atividades alheias ao projeto. ”É preciso realizar uma boa gestão do tempo, contar com uma rede de apoio familiar e com a compreensão por parte dos docentes. Algumas coisas fogem do nosso controle”, comenta Flávia Silva e Oliveira, doutoranda em enfermagem.


Por outro lado, Flávia ressalta que o novo formato de aulas poupa tempo e deslocamento ao remover as barreiras geográficas do conhecimento. “Podemos participar de aulas e eventos científicos de instituições nacionais e internacionais. Um mundo de possibilidades se abriu”. Essa versatilidade nas formas de interação, sem custos adicionais de viagens, é o principal ponto positivo do ERE reconhecido por estudantes e docentes. O modelo também permitiu a maior participação de pesquisadores convidados em eventos e bancas da UFG.


Outras perspectivas


A convivência e entrosamento com colegas era uma das maiores expectativas de Carolina Hissa em relação ao doutorado em Direitos Humanos. Para alívio da pesquisadora, a formação de redes profissionais e de afeto se concretizaram mesmo remotamente. “Quase um ano e meio após a pandemia vejo que essas redes aconteceram, de forma bem diferente, de forma nunca imaginada, mas aconteceram. Durante as aulas, as amizades se delinearam. Não foi a mesma coisa que o presencial, nunca será, mas não foi algo perdido”, relata.


No entanto, esse encurtamento do espaço-tempo também tem um lado nebuloso. O caráter imediatista e ágil do mundo digital desperta a falsa sensação de capacidade de aumento da produção científica. Pesquisadores têm se sentido sobrecarregados, principalmente pelo fluxo ininterrupto de mensagens. A realidade é que muitos estudantes estão recorrendo a prazos estendidos para entrega final da tese, tanto por questões subjetivas, quanto por restrições externas impostas pelo contexto pandêmico.


“Minha única frustração foi um leve atraso na minha própria pesquisa de mestrado, eu imaginava que iria conseguir seguir o cronograma à risca, mas não ocorreu”, lamenta Helen Cristian Marques Tomaz, mestranda em Ciências Biológicas. A estudante conta que, devido à limitação de pessoas no laboratório, houve atrasos no desenvolvimento de uma substância para o projeto. “Estas são restrições necessárias, mas não deixam de nos afetar”.


O isolamento social impactou de forma ainda mais drástica a tese de Juara Castro da Conceição, doutoranda em Comunicação. A ideia inicial da pesquisadora era produzir uma etnografia, com métodos presenciais, em rodas de samba pelo Brasil, com destaque para Goiânia, São Luís e Salvador. “Infelizmente não vou estudar algo que já vinha amadurecendo, que é a sociabilidade dentro das manifestações artísticas”.


Juara ainda lembra da sensação de incerteza e vulnerabilidade que os estudantes estão vivendo hoje, pelo luto e pelo ataque às universidades públicas por parte do Governo Federal. “O que cada pós-graduando está passando será impossível de esquecer. Às vezes eu fico pensando a razão de investir tempo e saúde em um artigo se não sei se estarei viva ou se ainda teremos universidade amanhã. Me sinto lutando contra a desesperança. Insistir, resistir e acreditar na ciência é que nos fará vitoriosos”.

Trabalho de gestão


De um lado da tela estão os estudantes, do outro, docentes e coordenadores dos programas de pós-graduação. No geral, o semestre já havia iniciado quando o primeiro decreto suspendendo atividades presenciais em Goiânia foi publicado. A movimentação de gestores de PPGs foi estratégica nesse período, na elaboração de um novo plano de curso e no levantamento de estudantes que careciam de aparelhos tecnológicos.


“Precisamos nos reinventar a cada dia para suprir as demandas desse novo tempo histórico. Flexibilizamos prazos e requisitos para defesa e qualificação de trabalhos, começamos projetos de extensão online e, ainda em 2020, fizemos um processo seletivo com apenas uma etapa presencial, organizada no Pátio das Humanidades”, conta Rosana Borges, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação.


Essas reinvenções provocam dúvida sobre os reflexos da pandemia na qualidade dos cursos de mestrado e doutorado, algo que ainda é incerto. Paralelo a todo esse cenário, os programas precisam se preocupar em manter ou elevar a nota na avaliação feita pela CAPES para o quadriênio 2017-2020, por meio do envio do Relatório Sucupira. A avaliação exige parâmetros de alta produtividade, tanto dos docentes quanto dos discentes, a exemplo de publicações em periódicos internacionais.


“Talvez possamos refletir que, se a qualidade for afetada, será pela falta de investimento governamental no ensino público e nas pesquisas. Será afetada pela crise política, econômica e pela falta de claras diretrizes do país em relação a pandemia”, pondera Flaviana Vely Mendonça Vieira, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Ela ressalta o compromisso de docentes, discentes e TAEs com a excelência da pesquisa na UFG.


De fato, todas as mudanças na forma de ensino vieram acompanhadas de uma onda de negação da ciência por parte da população, acentuada por cortes nas bolsas de pesquisa. As repercussões desse contexto são diversas e a experiência pioneira dos estudantes trouxe à tona dilemas sociais, políticos e culturais que apontaram tendências para o futuro da pós-graduação.


“O retorno não vai ser simples. Vivemos uma situação de luto coletivo e precisamos pensar no preparo emocional das pessoas. De qualquer forma, fica um legado de muitas oportunidades. No pós-pandemia, a pós-graduação tenderá a seguir um formato híbrido entre o presencial e o remoto. Porém, a essência da universidade é presencial”, destaca Laerte Ferreira, pró-reitor de Pós-Graduação da UFG.


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