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UFCSPA | Nunca vivenciei crise dessa proporção”, relata professor que atua na testagem

Atualizado: Ago 22


Fonte Portal UFCSPA

Professor Alessandro Comarú Pasqualotto

É fundamental manter a sanidade mental frente a grandes crises como a pandemia de Covid-19. O apelo direcionado à comunidade universitária é do professor de Infectologia da UFCSPA e coordenador do Laboratório de Biologia Molecular da Santa Casa de Porto Alegre, Alessandro Comarú Pasqualotto. Na primeira entrevista da série UFCSPA contra o Coronavírus, o docente aborda o trabalho para realização massiva de testes RT-PCR desde o início da pandemia e os impactos da Covid-19 sobre a rotina de profissionais de saúde. 

A UFCSPA vem atuando em diversas frentes de combate à Covid-19. Qual a sua atuação desde o início da pandemia?

Coordeno há dez anos o Laboratório de Biologia Molecular da Santa Casa. Com o avanço da epidemia, era nossa obrigação prover o hospital e a comunidade com testes moleculares que permitissem o diagnóstico acurado da Covid-19. E o fizemos. Muitas foram as dificuldades, especialmente no início do trabalho, mas felizmente contamos com o apoio da Santa Casa, do empresariado gaúcho e da UFCSPA. A Santa Casa horizontalizou seus processos para montar uma fantástica estrutura logística, visando apoiar a execução dos testes. O empresariado nos deu recursos para custear testes de PCR para profissionais da saúde e pacientes do SUS. A UFCSPA cedeu equipamentos e insumos, além de organizar um mutirão de colaboradores, os quais foram fundamentais para iniciarmos esta operação. 


Quantos testes foram realizados até o momento?

Já fizemos mais de 28 mil testes de PCR, sendo que 92% dos laudos foram emitidos em menos de 48 horas. Tornamo-nos referência em nosso Estado. Desenvolvemos também projetos de pesquisa e, com recursos privados, avaliamos a produção de anticorpos em profissionais da Brigada Militar de dez cidades do Rio Grande do Sul, bem como de profissionais de saúde atuando nas emergências de cinco grande hospitais de Porto Alegre. Os dias têm sido bastante longos.


Na sua experiência como docente e profissional da saúde, que dimensão você atribui ao desafio imposto pelo novo coronavírus?

Nunca vivenciei crise desta proporção. Fico imaginando como deve ter sido a vida de pessoas que passaram por conflitos ainda maiores, como as grandes guerras. Nos últimos meses, vi pessoas sendo levadas ao extremo, seja pelo cansaço, desespero, rupturas familiares, dependência química, ansiedade ou depressão. Nenhum dia foi fácil. Tivemos que reorganizar nosso laboratório às pressas, realocando equipamentos e readequando nossa área para tornarmo-nos um laboratório 100% Covid-19. Aumentamos em mais de seis vezes nosso quadro funcional, e incrementamos em mais de 1.000% nossos gastos com materiais médicos. Tivemos que tomar muitas decisões às pressas, e erramos muito, mas isto nos fez cada vez mais fortes. Temos hoje um time de excelente qualidade, do qual muito me orgulho. Para mim, esta tem sido a experiência mais incrível de gestão de minha carreira. Sabíamos que estávamos fazendo algo de vultosa importância para nossos clientes, o que foi extremamente compensador. 


Que impactos você sentiu em sua vida pessoal ao decidir atuar de forma direta no combate à Covid-19?

Eu, que me considero uma pessoa bastante egoísta, precisei abandonar muito de minha vida pessoal para imergir no laboratório, em uma intensidade muito acima da desejada. Passei a trabalhar incessantemente todos os dias, todas as horas e em todos os turnos. Atendia a ligações durante o banho, e tinha pesadelos todas as noites. Ainda hoje os tenho, mas agora são bem mais fáceis de lidar. Com o tempo, percebi que precisava voltar a me organizar, retomar os exercícios, passar mais tempo com a família, permitir desligar o telefone para dormir. Quando se está no meio do furacão, isto não é tão óbvio.


Como avalia o papel das universidades no combate à pandemia?

Acho que a pandemia ajudou a aproximar ainda mais as universidades públicas da comunidade e, neste sentido, a parceria UFCSPA-Santa Casa é um evidente exemplo de sucesso. As universidades colocaram seus equipamentos de pesquisa a serviço da população. Mais ainda, servidores públicos atuaram na força-tarefa para a execução de testes à comunidade, o que a meu ver é digno de longos aplausos. Reduziu-se o distanciamento entre o público e o privado. Todos nos tornamos um. 


A pandemia provocou uma série de mudanças coletivas e individuais nas sociedades de todo o mundo. Você acredita que alguns desses reflexos irá permanecer após o fim da crise?

A pandemia foi um importante agente catalizador de mudanças. Ela deixou clara a importância de nos adaptarmos rápido. Eu nunca tinha visto pessoas trabalharem de modo tão articulado para a preservação da própria espécie. Assim, é evidente que toda esta crise trouxe enormes ganhos. Menos viagens, menos eventos, menos reuniões. Voltamos a valorizar componentes muitas vezes esquecidos de nossas vidas: saúde, família, solidariedade e respeito ao espaço e individualidade alheios. A sociedade como antes a conhecíamos já é história. E este talvez seja o aspecto mais incrível disso tudo. 


Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?

O benefício das vacinas provavelmente não venha a se dar a curto prazo. Este é um processo relativamente lento, e a população precisa ter paciência, até que uma vacina segura e eficaz se torne disponível. Enquanto ela não vier, precisamos tocar nossas vidas da melhor maneira possível, mitigando a transmissão do vírus e, acima de tudo, mantendo nossa saúde mental. 


Você acha que toda essa situação deixará marcas na formação dos novos profissionais de saúde?

Precisamos repensar nosso modo de ensinar. O antigo modelo de aula não cabe mais nos dias de hoje, e possivelmente também não servirá amanhã. Mas esta me parece ser a parte mais fácil, ficando pendente o enorme desafio de como ensinar habilidades, muito embora me questione o quão efetivos éramos no ensino dessas, antes da epidemia.

 

Gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade universitária?

A reação natural dos animais frente a um stress descomunal é sair em luta, de modo inespecífico; uma luta angustiada, para derrubar todo e qualquer inimigo que surja no horizonte. Mas é preciso, no meio do caos, que aguçemos nossa capacidade reflexiva, para compreendermos que a maior fonte de tormenta, na verdade, são nossos próprios sentimentos. Somente enfrentando nossos inimigos internos é que poderemos ordenar e magnificar o poder de nossas ações. A pandemia nos mostrou que, frente a grandes crises, é fundamental que mantenhamos nossa sanidade mental, para que possamos resolver equações complexas em meio à tempestade.