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Brasil sairá da crise mais rápido se investir e apoiar mulheres empreendedoras | UFG

PANORAMA




Por Sabrina Fantoni e Renata Malheiros Henriques*

Fonte Secom UFG


A atividade empreendedora é um dos principais agentes para o crescimento econômico e a redução da pobreza. A boa notícia é que governos e instituições financeiras ao redor do mundo estão se dando conta de que um atalho para melhorar o cenário de empreendedorismo de um país é investindo em mulheres empreendedoras. Uma análise do Boston Consulting Group de 2019 mostrou que se mulheres e homens em todo o mundo participassem igualmente como empreendedores, até $5 trilhões de dólares poderiam ser adicionados ao PIB global.

No entanto, barreiras invisíveis e crenças culturais enraizadas ainda impedem as mulheres de participarem plenamente da economia. Vieses inconscientes sobre papeis de gênero aprendidos desde a infância contribuem para criar profecias autorrealizáveis entre homens e mulheres. É o que em parte explica o fato de mulheres se dedicarem 17% menos horas às suas empresas e o dobro de horas às tarefas domésticas do que homens, segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ().

A pandemia da Covid-19 tem escancarado essas fragilidades estruturais galgadas na nossa cultura. Desde o ano passado, houve a perda de 1,3 milhão de mulheres à frente de um negócio segundo o Sebrae. Duas razões merecem destaque: mulheres tendem a trabalhar predominantemente em indústrias de baixos rendimentos que foram mais duramente atingidas pela crise (serviços e comércio), e elas são mais confrontadas com vulnerabilidades socioeconômicas e financeiras devido ao peso das múltiplas jornadas (trabalho, filhos e família). A situação é ainda pior para as empreendedoras negras: 79,4% operam sem reservas financeiras no atual cenário econômico. Esse quadro impacta a baixa competitividade média das empresas lideradas por mulheres que, consequentemente, puxa ainda mais para baixo a competitividade agregada da economia do país.

Em tempos de crise, mulheres encontram no empreendedorismo uma forma de driblar o desemprego. Em 2020, os empregos de carteira assinada fecharam no azul para homens, enquanto que para elas, mais de 87 mil postos foram perdidos . Não por acaso, mulheres que iniciam um negócio por necessidade é de 44% frente aos 32% dos homens, como indica estudo do Sebrae de 2019. Isso faz com que mulheres não possam se dedicar ao seu negócio com segurança diante de tantas incertezas e, por essa e outras razões, empresas lideradas por mulheres têm menor porte e faturam em média, 22% a menos que as lideradas pelos homens, segundo dados do Sebrae de 2019. Mulheres empreendedoras estão mais concentradas na situação de Microempreendedor Individual (MEI), que fatura até R$ 81,000 por ano.

Considerando que quatro em cada 10 lares brasileiros hoje são chefiados por mulheres de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e que, entre esses, 41% são sustentados por mulheres empreendedoras, pode-se dizer que o Brasil está perdendo uma grande oportunidade de melhorar a condição de vida não só de milhões de brasileiros bem como da economia como um todo. Os benefícios de se investir em mulheres empreendedoras são inúmeros: mulheres empregam mais mulheres, são menos inadimplentes que os homens apesar de pagarem taxas de juros maiores, e são mais escolarizadas. Um outro estudo do Boston Consulting Group e Mass Challenge , mostrou que, apesar de receberem menos financiamento, as startups fundadas e co-fundadas por mulheres são investimentos financeiros significativamente melhores. Para cada dólar de financiamento, essas startups geraram 78 centavos, enquanto startups fundadas por homens geraram menos da metade disso - apenas 31 centavos.

Para que todos possamos colher os frutos de se investir no empreendedorismo feminino, governos, instituições financeiras e o setor privado precisam adotar medidas que ajudem mulheres empreendedoras a sobreviverem e prosperarem durante e depois da pandemia. Dentre as principais práticas que podem ajudar a mitigar os efeitos dessas e de futuras crises nos negócios liderados por mulheres, estão:

- Acesso a dispositivos digitais como por exemplo, smartphones, tablets, laptops e, tão importante quanto, letramento digital: Para as empreendedoras, esses dispositivos säo peças chaves para que elas atravessem os desafios da pandemia com mais confiança. Uma parcela significativa dessas mulheres trabalha em seus domicílios, e prover alfabetização digital e melhor conectividade a elas é essencial para seus negócios continuarem e prosperarem. Além disso, o letramento digital permite maior participação em redes, uma vez que as soft skills são fundamentais para superar vieses inconscientes e promover fortalecimento empresarial.

- Coleta de dados desagregados por gênero: Esse é um fator crucial para compreender e aconselhar políticas e regulamentos para plataformas digitais. Medir e divulgar dados por gênero é um dos sete Princípios do Empoderamento Feminino (Women Empowerment Principles -WEPs), pacto global da ONU com empresas públicas e privadas para atingir mais equidade no mercado de trabalho. Sem dados desagregados por gênero sobre a inclusão digital e financeira das mulheres, será impossível dizer o quanto já avançamos e o quanto ainda precisamos avançar. As instituições financeiras também se beneficiariam com o rastreamento de dados desagregados por gênero, pois isso as incentivaria a buscarem o mercado feminino subvalorizado e a adaptarem seus produtos e serviços com base nas necessidades do público feminino.

- Acesso ao crédito e serviços não financeiros: O acesso ao crédito continua sendo um dos principais desafios para empreendedoras. Encontrar maneiras de desenvolver modelos alternativos de pontuação de crédito, como o uso de dados móveis, é crucial para que mulheres sem acesso a ativos tradicionais possam construir um histórico de crédito. Além disso, investir em serviços não financeiros como mentoria, redes e suporte para empreendedoras em situação de vulnerabilidade são caminhos não menos importantes para a mudança necessária. Bancos ao redor do mundo têm alcançado ótimos resultados ao investir nesses serviços, segundo os últimos estudos de casos publicados pela Corporação Financeira Internacional (International Finance Corporation – IFC).

Reduzir as lacunas digitais e financeiras e barreiras invisíveis culturais para as empresas lideradas por mulheres deve ser não apenas uma prioridade econômica na atual pandemia, mas também aquilo que definirá o caminho para que empreendedoras prosperem e se recuperem com mais rapidez e eficiência independente de futuros choques externos. Quando as mulheres têm maiores oportunidades para participar da economia por meio do empreendedorismo, os benefícios se estendem não só para suas crianças e famílias, como para suas comunidades e para competitividade agregada do Brasil. O país não sairá dessa crise sem elas.

---- Artigo originalmente publicado no Estadão

Sabrina Fantoni é Analista de Desenvolvimento do Setor Privado e de Empreendedorismo Feminino no Banco Mundial em Washington DC e é mestre em estudos da América Latina pela Escola de Relações Internacionais da Universidade de Georgetown.

Renata Malheiros Henriques é Coordenadora Nacional de Empreendedorismo Feminino do SEBRAE e Co-fundadora da Alumna Mentoria. Mestre em Development Studies pela Universidade de Cambridge, Reino Unido e Women’s Leadership Network Alumna, Universidade de Columbia, EUA.

Disclaimer: Este artigo foi escrito a título pessoal e não reflete necessariamente posições oficiais do Banco Mundial ou do Sebrae.

https://www.bcg.com/publications/2019/boost-global-economy-5-trillion-dollar-support-women-entrepreneurs https://noticiapreta.com.br/79-das-empreendedoras-negras-nao-tem-reservas-durante-o-isolamento-social/ https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,mercado-formal-de-trabalho-fecha-2020-no-azul-mas-mulheres-perdem-vagas-com-carteira-assinada,70003597555 https://www.terra.com.br/noticias/dino/mulheres-ja-sao-maioria-no-mundo-do-empreendedorismo,4911285f5b6c5f3314898af8164aa1973ai2vklb.html https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-03/quatro-em-cada-dez-lares-sao-comandados-por-mulheres-em-sao-paulo https://www.bcg.com/publications/2018/why-women-owned-startups-are-better-bet

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